Interoperabilidade, Alert e interesses

Sendo eu um profissional de Saúde, naturalmente darei mais enfoque a notícias relacionadas com a mesma e que tempo pródigo em notícias!

Requalificação da rede de urgência, reorganização dos meios de emergência pré-hospitalar, negociação das carreiras dos funcionários de saúde, demissão do Ministro da Saúde, as próprias notícias sobre as pseudo notícias do estado da Saúde em Portugal, tudo isto são temas mais ou menos actuais sobre os quais poderíamos reflectir, mas não… estaria irremediavelmente atrasado ao comentá-las neste preciso momento.

O que irei falar está intimamente relacionado com um fim último e necessário, um conceito chamado interoperabilidade de sistemas de informação, um conceito ainda inexistente na realidade da Saúde mas sem o qual nunca poderá existir realmente a possibilidade de se pôr em prática outro conceito, cuidados de Saúde em todo o ciclo vital da Pessoa.

Imaginemos… Nasce o João Carlos (nome fictício), o seu nome e a sua história de vida (relacionada com a sua saúde) fica automaticamente registada num ficheiro e … cada vez que o João acede a um serviço de Saúde, uma nova página é escrita (uma vacina, um internamento, uma cirurgia, a realização de um exame complementar de diagnóstico por ex.).

Agora imaginemos se houvesse a possibilidade de um qualquer utilizador devidamente autorizado e com a competência específica para o acto que poderia desempenhar pudesse aceder a essa informação e propor uma intervenção específica com vista à melhoria de um qualquer aspecto relacionado com a sua Saúde…

Imaginemos um caso que poderia ser bem real. O João tem 15 anos e supomos que existiria um plano nacional de Saúde predeterminado que especificaria que nesta idade o João necessitaria de receber educação para a Saúde relacionado com as DST ou consumo de drogas. Haveria um “piscar” no desktop do PC do enfermeiro de CSP (cuidados de saúde primários) e este estaria accionado para desenvolver esta acção, sendo que este teria acesso a toda a informação RELEVANTE para o desempenho desta função. O João tem agora 22 anos e conduz, teve um acidente de carro e dá entrada na Urgência de um qualquer Hospital, automaticamente os CSP têm acesso a esta informação pelo que sabem que qualquer educação/acção para a Saúde agendada nesta data para o João não pode ser efectuada pelos motivos mais óbvios ( e isto é apenas umas das possibilidades do que se pode fazer com esta informação). Entretanto no Hospital… O João entrou sozinho e está inconsciente, não traz documentos nem contactos. Será que há informação relevante(apesar de ser jovem pode ter uma qualquer doença em que determinado “tratamento” seja inapropriado)? Como saber? Não há problema. Entramos no “sistema de informação” e acedemos à base de dados do João (que ainda só tem “páginas” escritas nos CSP e aí teremos toda a informação relevante. Entretanto passam-se semanas e o João já está apto para ter alta do Hospital após fracturas em ambos os Membros inferiores não estando ainda totalmente independente para a sua vida “normal”. Instantaneamente “acende-se a luzinha” no PC do enfermeiro, fisioterapeuta e psicólogo dos CSP e estes sabem à partida o plano a seguir, quer prescrito por outrem quer da sua própria competência pois têm acesso e conhecimento graças à base de dados do ÚNICO E UNIVERSAL sistema de informação.

Parece uma utopia mas seria bem menos oneroso para o erário público, menos demorado na recolha de informação e bem mais fiável do que as condições existentes actualmente.

Não pretendo descrever as potencialidades e particularidades deste conceito com exaustão e pormenor, espero pelo vosso contributo e opinião…

Mas onde eu quero chegar realmente é:


Falar-vos do programa Alert e da sua implementação quase generalizada a nível nacional.

Que pretende o Ministério da Saúde? Iniciar todo este processo que acima descrevi, ou parte dele ou apenas fazer mais um negócio? “Comprar” apenas mais um programa de software? Há que saber as razões por detrás de tudo isto e saber se este programa é o melhor e mais adequado para o uso que lhe está a ser dado e para o qual é em potência o seu papel na reestruturação do conceito de interoperabilidade entre sistemas de informação em saúde.

Isto tudo porque vi publicada uma notícia sobre este tema e cuja dúvida inerente a toda esta aparente conformidade e aceitação com a implementação do Alert está em mim enraizada há muito.

Anúncios

6 thoughts on “Interoperabilidade, Alert e interesses

  1. Ao último anónimo… Será que já deu mesmo tantas provas do seu valor? Que competição tiveram na hora da escolha do “produto” a implementar? Relembro-lhe o Alert P1, as críticas que sofre todos os dias e que recentemente teve um novo episódio: escolher Armando Brito e Sá (para quem não conhece, faz parte da Unidade de Missão dos Cuidados de Saúde Primários) para consultor da Alert Life Sciencies Computing SA ( que anteriormente se designava por MNI). Admitamos que pode denotar uma certa forma de influenciar decisões não?

  2. E Porque não a MNI? não deram já provas bastantes do seu valor? … a empresa apenas fornece uma parte da solução…se há muito mais a fazer, já não será problema deles, acho eu.

  3. A questão de escolherem a MNI é uma questão essencialmente (e certamente) de interesses institucionais. Quais? Hipoteses há varias.Agora sim, estou completamente de acordo com o desperdicio/desarticulação de informações/meios.Há que rentabilizar os recuros existentes, nem que seja (pessoalmente) eliminar alguns para que não haja mais um elo de informação/meio.Saudações colega.Ps: Vou passar por aqui mais vezes.

  4. A questão nem é ser utópico (só assim o pode ser considerado se o julgarmos impossivel) mas o porquê de “escolherem” precisamente a MNI (empresa que produziu o Alert) para começar aquilo que julgo ser o início de um sistema único de informação. A questão da base de dados levanta alguns problemas, ao que julgo, relacionados com privacidade e protecção de dados, que eu não concordo pois à semelhança do Alert, cada usuário tem acesso apenas à informação que é considerada necessária para o executar das funçoes inerentes a esse mesmo ususário. O que é certo é que é um desperdício de meios, sem dúvida nenhuma, ter vários sistemas como Sonho, SAM, Sigus entre outros, tal como a transmissão ineficaz de informação, o que leva por exemplo a que um doente faça por ex, análises no hospital de origem e no hospital que o recebe, simplesmente porque não houve uma comunicação eficaz.Antes de tentar resolver as situações há que criar condições para que elas não sucedam.

  5. Pessoalmente não considero utopico a centralização da informação do doente num só sistema.É do todo o interesse.Neste momento existem vários sistemas de registo do doente e a artculação entre os mesmos é “precária”. Há informações que não passadas dós cuidados de saúde primária para a secundária e terciária e vice-versa. Há repetição de exames/analises consultas, com o respectivo desperdicio monetário e informativo. Agora, parece que há rentabilização do negocio.

Sem censura... mas sem ilegalidade e acima de tudo com o sentido de responsabilidade. Opiniões contrárias não são só aceitáveis... são desejáveis... mas for favor identifique-se, nem que seja com pseudónimo

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s