Relações entre desemprego/remuneração/produtividade/reconhecimento do valor de um enfermeiro PARTE 3

E agora poderíamos perguntar…E como relacionar isso com a actividade de um enfermeiro ou então, porquê atribuir isso à responsabilidade completa ou parcial de um enfermeiro?

Talvez a parte mais morosa mas talvez a mais fácil de explicar e de resultados mais concretos.
O que é a prática da Enfermagem baseada na evidência?
Investigação que vai pressupor o envolvimento do enfermeiro, o que ele faz, impacto do que ele faz, resultados obtidos, ilações a tirar daí.

Formas fáceis de se obterem resultados:
a) Verificar taxas de infecção relacionadas com o número de enfermeiros disponíveis sendo que no final se avaliam os custos. Compensa ter mais um enfermeiro ou compensa o gasto em antibióticos ou complicações relacionadas com a infecção?
Verificaremos todos que se o resultado for compensar ter mais um enfermeiro e os dados forem bem explícitos (a haver relação indesmentível entre as variáveis enfermeiro/aumento da taxa de infecção) então o enfermeiro será necessariamente contratado (isto se o gestor for minimamente competente, se o não for estão lá os dados que podem atestar da sua incompetência/negligência e se há coisa que é insuperável é o NÚMERO).

b) Atestar relação entre aumento de complicações no pós-operatório com um número inferior de enfermeiros ao estipulado (e aqui tal como em todas as situações de “estipulação” tem de haver uma escala que avalie o mais fidedignamente a quantidade de horas e cuidados de enfermagem que os utentes/doentes precisam). O raciocínio a sublinhado da primeira alínea será válido para todas as outras.

c) Observar o impacto dos cuidados da enfermagem na morbilidade e mortalidade, assim como nas complicações de qualquer doença aguda ou crónica (isto para cuidados ditos não essências ou mínimos ou como lhes quisermos chamar) e passo a enumerar apenas alguns.
– EAM: por exemplo a instituição de oxigenoterapia apenas sob prescrição médica ou logo que o juízo do enfermeiro o assim determine;
– AVC isquémico : Intervenções de reabilitação precoces : diferença entre fazê-las e não fazê-las.
– Ventilação Mecânica invasiva e não invasiva: Diferenças entre o nível de sedação pretendido quando a administração de sedativos é “guiada” pelo enfermeiro e quando ela é arbitrária.
– Analgesia em SOS(segundo o juízo do enfermeiro) versus analgesia “fixa” : resultados observados em função do controlo da dor, total de analgesia usada e custos finais.
– Taxa de reinternamento versus disponibilidade do enfermeiro para a completa e correcta execução de um plano de cuidados para a alta( e aqui tanto pode ser avaliado o enfermeiro que “deu a alta” como o enfermeiro da comunidade).

Como estas ideias tantas outras, é somente preciso disponibilidade, vontade e tempo, acima de tudo tempo…

E agora seríamos levados a pensar:

Mas que influência poderia isto ter além de “forçar” a aumentar o número de enfermeiros (pelo reconhecimento de que mais enfermeiros significa mais qualidade e menos custos totais, contra o modelo actual de: enfermeiros a mais ou a menos não traduzem absolutamente nada nestes indicadores e portanto as complicações são inevitáveis e os custos destas são fixos, portanto há que diminuir o número de enfermeiros ou os seus vencimentos)?

Penso que a resposta é previsível. O registo das intervenções é fundamental, assim dessa forma, e pensando que este passo é posterior aos anteriores, chegaríamos a este ponto já sabendo que o enfermeiro influencia decisivamente a história de doença ou saúde de um utente, haveria a necessidade de cruzar os dados e saber qual o enfermeiro que tomou as medidas mais correctas, necessárias e completas e assim determinar qual o mais apto, ou em termos gerais, qual o melhor.

Os dados daqui obtidos seriam facilmente analisados numa avaliação de desempenho, pelo menos quanto à produtividade e qualidade das suas intervenções, pelo que este “melhor enfermeiro” efectivamente se traduz num ganho para a instituição que o possui.

Daqui até a um aumento da sua remuneração seria um pequeno passo pois os enfermeiros não seriam todos iguais, não teriam todos as mesmas capacidades e quando o enfermeiro é competente a instituição tem menos gastos, mais qualidade, pelo que faz sentido pagar mais por ele e tê-lo no seu seio. Regras do mercado que tardamos em aprender.

Quanto ao facto da competência efectiva, isso já será outra conversa pois implica abordar o tema das necessárias especialidades e a sua importância em todos os capítulos já referidos: no adquirir da competência necessária para provar a efectiva relação entre o ser bom e mau enfermeiro e o impacto da sua acção…
Essa temática(das especialidades) já está bastante discutida mas será abordada aqui brevemente…

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2 thoughts on “Relações entre desemprego/remuneração/produtividade/reconhecimento do valor de um enfermeiro PARTE 3

  1. Será que conseguiremos provar a importância do enfermeiro (em todas as dimensões) antes da extinção? Esta espiral, esse ciclo vicioso de que fala, pode comprometer tudo a que aspiramos… Mas também temos feito pouco por demonstrarmos o contrário. Temos de aprender a canalizar as nossas energias reivindicativas, de uma forma mais inteligente e/ou vigorosa. Nenhuma delas é que não pode ser. Quando conseguirmos mostrar o que um enfermeiro faz e os resultados do que faz, aí talvez possamos dizer o que é ser bom enfermeiro…

  2. Este post merece uma vénia, caro colega.Permita-me reflectir um pouco num dos aspectos que mencionou, nomeadamente o impacto de enfermagem nos “ganhos em saúde” globais. O SNS está a enveredar por um caminho ambíguo, racionalizando e gerindo os meios humanos de forma pouco categórica. É um dado adquirido que os cuidados de enfermagem traduzem ganhos em saúde, diminuem taxas de internamento, diminuem a despesa corrente hospitalar, com todas as benesses adjacentes a estes propósitos. A tal evidência mostra-nos isto, mas a sistematização deste conhecimento e documentação fundamentada encontra-se ausente. Não interessa à enfermagem basear-se no princípio da casualidade, há que reagir activamente ao paradigma da gestão moralmente correcta do rácio, e isso implica a demonstração de dados, números, taxas e cálculos de correlação do sucesso partindo do trabalho do enfermeiro. Mas a depleção galopante dos recursos de enfermagem desvia a actividade do enfermeiro ao medicamente necessário, colocando em 2º plano a intervenção sobre os fenómenos de enfermagem que traduzem ganhos directos em saúde (segundo o resumo mínimo de dados de enfermagem). Entramos num ciclo vicioso que fragiliza o acto do enfermeiro, incutindo a má prática e a “tarefização” do trabalho. Esta situação torna-se inevitável e avaliar o desempenho do enfermeiro que trabalha por tarefa, em equipa, pode camuflar o rigor de uma correcta avaliação. E quanto a isto, pergunto. O que é ser bom enfermeiro?Mais uma Visão ENFernal.Miguel Teixeira

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