Task Shifting: Transferência de Tarefas

Transferência de Tarefas (Task Shifting)

O que é? Um dos métodos para melhorar e expandir a mão de obra da área da Saúde para rapidamente aumentar o acesso a serviços de saúde. Este processo envolve a delegação de tarefas por pessoal mais qualificado para outro menos qualificado, de forma a dar um uso mais eficiente à mão de obra dos profissionais de saúde, tudo isto numa base de redistribuição racional das tarefas pelas diferentes forças de trabalho na Saúde.

Para que este objectivo seja atingido, existem determinadas recomendações (sugeridas pela OMS link) para que este processo obtenha o seu verdadeiro propósito: aproveitar os recursos existentes para formar novos recursos de forma a melhorar a assistência global à população.

Embora este conceito, tal como ele é visto na actualidade, seja mais adequado a situações mais comuns a países em vias de desenvolvimento (actual designação do terceiro mundo), a maioria de toda a ideologia subjacente ao conceito é já usada nos países desenvolvidos, ainda que de forma bastante díspar entre os vários países e com níveis de urgência na sua implementação diferentes das situação original ( Acesso dos doentes com HIV aos cuidados de saúde link), porém este conceito de delegação de tarefas é bem mais útil e actual do que se possa imaginar, mas adiante…

As recomendações mais não são que um garante da sua correcta implementação entre os profissionais e o perfeito entendimento, por estes, do que o método e forma de “política de saúde” que a delegação de tarefas implica , para que o equilíbrio entre os conceitos de accountability e Humanismo aconteça.

Estas situações de delegação de tarefas são prática comum e são até casos de sucesso, não só em países em vias de desenvolvimento, mas também nos desenvolvidos, como é o caso dos Nurse Practioners nos EUA ou ainda no Reino Unido (prescrição de fármacos por enfermeiros é apontada pelos utentes como a sua preferida).

Mas poderíamos perguntar se Portugal precisa deste método ou desta forma de distribuição dos recursos na saúde…

Temos acesso equitativo de toda a população aos profissionais de saúde (Viver em Vinhais ou Penacova garante a mesma acessibilidade que Porto ou Lisboa)?

Não

Todas as pessoas têm os seus problemas de saúde cobertos pelos serviços de saúde, em tempo real (vide caso de Oftalmologia, para só falar no mais mediático)?

Não

Não existem impedimentos legais para que alguns grupos profissionais não estejam qualificados para exercerem funções para as quais estão preparados ou minimamente preparados (caso de enfermeiros, farmacêuticos ou fisioterapeutas; ou ainda o caso das terapias não convencionais ou alternativas)?

Não

Todos os grupos profissionais são explorados até ao limite das suas competências ou potenciais competências, de forma a assegurar maior cobertura de acções na globalidade da assistência à população (transversal a todos os grupos profissionais do SNS; caso dos CSP com o desperdiçar de recursos com médicos nesta área e a insuficiente aposta em enfermeiros e outros técnicos)?

Não

Não existem campos de actuação cuja qualidade seja insuficiente por imperativos legais ou burocráticos ( caso da Emergência pré-hospitalar com as restrições à actuação de enfermeiros e o uso do DAE por parte da população treinada; caso dos CSP , Cuidados na comunidade e Paliativos, com as restrições à prescrição de fármacos, material de saúde e higiene, centralização da responsabilidade no médico ) ?

Não

Apostamos na autonomia das associações de doentes, cuidadores informais, educação para a saúde a nível de prevenção primária, envolvimento do cidadão comum na sua saúde e na da sua família?

Não

Então precisamos mesmo de ter este conceito bem presente.

Os conhecimentos devem ser partilhados. A questão da exclusividade está demasiado presente o que impede melhores cuidados à população. Quando os interesses de uma qualquer classe profissional se sobrepõem aos interesses da população em geral, algo está mal. È necessário partilha, actualização das mentalidades.

Maior proximidade dos serviços à população, acesso a informação facilitado, mais pessoas envolvidas nos cuidados, menor burocracia, mais cuidados de saúde para mais pessoas, papel principal do utente no sistema e não dos profissionais… É disto que se trata…

Os desafios do século XXI, entre os quais a sustentabilidade dos sistemas de saúde e o acesso equitativo aos mesmos serviços, serão transversais a todos os países, assim urge que todos tenhamos noção que ou mudamos ou ninguém terá acesso à Saúde no futuro.

Mas o que é que nos bloqueia para que este processo não seja efectivo?
Que forças e interesses não ganham com o implementar deste conceito? Em Portugal e no Mundo ?

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2 thoughts on “Task Shifting: Transferência de Tarefas

  1. O conceito de Task Shifting foi extremamente badalado e a sua implementação ocorre em meios em que os lobbys não imperam. Dou o exemplo da emancipação do papel do AAM com a transferência de funções do enfermeiro, cujo propósito seria rentabilização de recursos humanos com vista à diminuição da despesa corrente mas sem atender à qualidade dos serviços prestados. Ou seja, a delegação de funções não é vista, no nosso contexto, como uma medida de incremento da qualidade dos serviços do SNS sobre a população, mas como o veículo para conduzir à contenção da despesa. O paradoxo deste tema reflecte-se na emancipação do papel do enfermeiro com atribuição de funções, nomeadamente, da classe médica. Neste campo há que reflectir em 2 aspectos fundamentais, sendo o primeiro a realidade da medicina actual em Portugal, cujos trâmites toda a gente conhece. Por outro lado é a preparação do enfermeiro para assumir determinadas competências que implica aquisição de conhecimentos teorico-práticos importantes. Ou seja, a meu ver seria primordial preparar a classe de enfermagem para as exigências da conjuntura da saúde actual por forma a tornar visível as suas competências à luz de quem as monitoriza, impedindo assim soluções desenfreadas em “cima do joelho” que não irão transpor qualidade para o seio da prestação de serviços. Visão ENFernal

Sem censura... mas sem ilegalidade e acima de tudo com o sentido de responsabilidade. Opiniões contrárias não são só aceitáveis... são desejáveis... mas for favor identifique-se, nem que seja com pseudónimo

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