O direito de Exigir nos serviços de Saúde

A revista “Teste Saúde” de outubro de 2011 expõem um trabalho (inquérito) relacionado com o Erro Médico muito interessante para todos. Quantos de nós olhamos para o SNS ou para o privado e observamos erros/incongruências/defeitos. O mesmo trabalho enaltece que negligência é diferente de erro no contexto da prática em saúde, o que é importante de ressalvar. Como profissionais temos um ponto de vista e um modo geral de actuar, que difere do modo como observamos e somos atendidos como utentes.
No nosso profissionalismo, é nosso dever ético-deontológico prestar os melhores cuidados ao utente, mas estes melhores cuidados muitas vezes são limitados por condicionantes e é neste ponto que refiro que geralmente não expomos aos utentes às nossas condicionantes. Tentamos adaptar-nos a elas e minimizar ao máximo os efeitos das mesmas, muitas vezes tentando não dar a entender este processo ao utente. Será isto correto?!
O artigo abordado no “negócios online” exemplifica este tema com actuações directas de médicos, mas penso que é evidente que todos nós experienciamos este tipo de decisões/posturas, pois nós, (profissinais de saúde) somos detentores de responsabilidade profissional/civil e sabemos que temos de tratar o utente como um cliente, com os seus direitos e deveres.
O artigo refere que a Deco, em nome dos consumidores pretende que se “inverta o ónus da prova e evite perseguições aos profissionais de saúde”. A introdução da responsabilidade objectiva, fará com que sejam os profissionais a demonstrar o porquê da sua actuação, segundo os mais recentes conhecimentos da medicina e não o utente a demonstrar o erro.
Segundo artigo, no seguimento desta medida observasse-ia um aumentar da “contratação de seguros de responsabilidade civil com capitais adequados, o que poderia evitar o recurso aos tribunais. Mas, mesmo pela via judicial, o facto de a responsabilidade ser transferida para as seguradoras permitiria maior protecção aos doentes.”

Penso que era importante se destacarem dois aspectos (da base do problema): 1º A necessidade constante de o utente ter alguém que defenda as suas necessidades de cuidados perante o seu estado de saúde.
2º Reconhecer-se que tanto ao nível do SNS como do privado se verificam extensas incorrecções, défices, falta de recursos, desorganização,…
Isto tudo surge, porque atualmente não existem condições financeiras (tanto no sector público como no privado) que permitam que se realize um investimento, que defenda os cuidados de excelência em todas as áreas aos utentes.

Digo isto, porque em muitos momentos dá-me a entender que a sociedade não compreende como se encontram os serviços de saúde e pensam os profissionais têm de fazer o possível e impossível para que não surjam formas de actuar incorrectas/ cuidados de saúde razoáveis. Cuidados de saúde de excelência na minha definição pressupõem muitos aspectos que é raro verificarem-se (tais como tempo, recursos materiais, físicos, tecnológicos, correta aplicação/existência de indicadores de saúde nos serviços, o que rege a acreditação e a importância da mesma,…).

Se constantemente, os familiares ou os utentes me questionam o porquê das minhas intervenções, o porquê de de eu agir de certa forma, mesmo considerando estar eu a fazer o melhor possível na minha actuação, até que ponto eu devo evitar dizer ou devo dizer, que não me encontro a actuar segundo “os mais recentes conhecimentos da medicina”, porque não me são disponibilizadas determinadas condições… Isto não gerará perseguição, sentimento cuidados inadequados?!

Claro que paralelo a tudo isto, como em todo o lado, existem bons, razoáveis e maus profissionais. Se a postura de alguns é não acarretar os direitos dos utentes (“ou são superiores às regras/sistema”), isso já é outra temática, que também seria desenvolvida com outros aspectos, tais como a necessidade de adequada avaliação dos profissionais, formação continua, ou outros diversos e complexos pensamentos.

in: http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=524773

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2 thoughts on “O direito de Exigir nos serviços de Saúde

  1. Olá Mauro ;)Concordo integralmente com a afirmação, com excepção no desculpabilizadora. Penso que o contexto do teu pensamento é mais correto sendo, "com fraca capacidade autocrítica e culpabilizadora". Realmente a maioria dos profissionais não usam a sua palavra, nem tempo, para exporem os seus pontos de vista ou serem ainda mais pro activos no seu trabalho e na forma como este se desenvolve/produz. Porque a maioria só pensa nos seus próprios problemas e não nos da "generalidade", o que não gera desenvolvimento, muitas vezes pelo contrário, gera mais facilitismo, precariedade e desmotivação… Muitas vezes pelo receio do impacto que as suas palavras possam causar, ou por acreditarem não serem capazes de transmitir de forma capaz as ideias que querem passar, ou por simplesmente não quererem saber do quer que seja. Porque tal como sabes, muitas vezes devemos dizer as ideias, mas de forma inteligente, não logo indo directamente ao problema, mas partindo de condicionantes geradas pelo problema passar para o mesmo (a titulo de exemplo). Vivemos num momento em que existem mais relaxados e oportunistas, mas ao mesmo tempo existem mais pessoas com maior medo de falar nos momentos difíceis de forma adequada. É um exemplo crasso as abstenções que se verificaram nas eleições e ao mesmo tempo a generalidade das pessoas estarem conformadas com o facto de pagarem as cotas não intervirem em momento algum.Se queremos evoluir/ desenvolver, é obrigatório saber-mos ser mais auto críticos, tal como em tudo na vida.

  2. Olá Vítor. Bem vindo :)Por outro lado, numa cultura com fraca capacidade autocrítica e desculpabilizadora, também poderíamos esperar um maior laxismo por parte dos profissionais.Qual é a tua opinião? Há mais relaxados ou mais autocríticos? Isso faz toda a diferença…

Sem censura... mas sem ilegalidade e acima de tudo com o sentido de responsabilidade. Opiniões contrárias não são só aceitáveis... são desejáveis... mas for favor identifique-se, nem que seja com pseudónimo

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