Sector social na saúde, uma completa novidade

Andam os ânimos em alvoroço com o Despacho  nº 12876/2012, que cria “um grupo de trabalho com o objetivo de analisar as condições de abertura do modelo C de USF, a título experimental, ao sector social e cooperativo”. E parece-me bem que andem, afinal foi criado um grupo de trabalho na área dos CSP e não tem nenhum Enfermeiro (reacção da OE aqui).
Mas não é por isso que os ânimos andam mais alvoraçados. Parece que choca muita gente a abertura das USF ao sector social e cooperativo, tal como também já tinha causado incómodos a devolução de hospitais às Misericórdias. Recorde-se que as Misericórdias têm uma experiência na saúde de mais de 500 anos (que nem sempre foram exemplares, note-se) e que continuam hoje a ter um papel importante em quase todas as comunidades. Recorde-se também que o SNS foi criado em 1979 (o Estado já tinha um papel significativo na saúde, mas não desprezava o sector social) e já está falido, enquanto as Misericórdias continuam a ter contas equilibradas, apesar das dificuldades crescentes.
Mas mais do que a experiência e do que o sucesso da gestão, não será mais fácil às Misericódias intervir nas comunidades onde elas próprias estão integradas (e onde até já têm outros serviços a funcionar)? Não será um passo positivo para colocar a comunidade a responsabilizar-se pela sua própria saúde, aproximando os serviços de saúde das pessoas e das instituições locais?
Mas seguindo a ideologia de que tudo cabe ao Estado (ideologia que até levou à privatização de património das Misericórdias nos tempos áureos do pós-Revolução), suponho também que não é legítima a existência (ou a colaboração com o Estado) das actuais corporações de bombeiros, que não são mais do que Associações Humanitárias. Mais, não percebo que haja convenções no sector da Saúde, que geralmente são feitas não com o sector social ou cooperativo, mas com privados com fins lucrativos. E os Cuidados Continuados, centros de dia e lares de idosos, pertencentes a IPSS’s e que colaboram com a Segurança Social (para mim estes são os únicos verdadeiros “parceiros sociais”). Agora que escrevi isto ainda vou dar ideias a mais meia-dúzia de cabeças pensantes que vão achar que devíamos nacionalizar isto tudo… (espero que, pelo menos, tenham percebido com isto a ironia do título do post)
Contudo, há com toda a certeza preocupações legítimas, com a manutenção da qualidade e acessibilidade dos cuidados e com ganhos financeiros que este modelo pode ou não trazer. Aliás, essas preocupações tenho-as com o financiamento das EPE’s e de todo o SNS, que por vezes parecem não ter em conta noções básicas de Gestão em Saúde. Mas é para isso que se criam grupos de trabalho, para avaliar as necessidades, definir os moldes em que vai funcionar o modelo, analisar os possíveis contratos-programa… Esperemos pelas conclusões do grupo de trabalho (que virá, espero, a ter representação da Enfermagem) e depois sim podemos opinar com dados e não com base em preconceitos ideológicos.

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3 thoughts on “Sector social na saúde, uma completa novidade

  1. Tem que ver com uma mentalidade do século passado, elitista, chauvinista, que se não começa a evoluir rapidamente para o conceito de equipa multidisciplinar nos vai conduzir a um fosso e abismo colossais, não tem só que ver com Enfermeiros, mas também com farmacêuticos, com fisioterapeutas, com radiologistas, etc…é a equipa de saúde que importa aqui e no meio da diferença é que se encontram as grandes e inovadoras respostas, Portugal não têm ido a bom Porto com as medidas que têm tomado e é simples identificar os porquês, se são sempre os mesmos a querer os meus objectivos tal como defendia Einstein chama-se LOUCURA " o primeiro sinal da loucura é fazer sempre o mesmo e esperar obter resultados diferentes".

Sem censura... mas sem ilegalidade e acima de tudo com o sentido de responsabilidade. Opiniões contrárias não são só aceitáveis... são desejáveis... mas for favor identifique-se, nem que seja com pseudónimo

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