Cortar claro, mas onde?

Vou começar por dar algumas notas sobre este país esquizofrénico em que vivemos:

  • Estamos prestes a aprovar o OE mais austero de sempre. Se por “austero” considerarmos que vamos gastar apenas mais uns 7 milhões do que aquilo que temos;
  • Estamos num país em que as mesmas pessoas que durante mais de um ano se bateram contra o encerramento da MAC, racionalização de serviços de saúde, encerramento de tribunais, corte de subsídios na função pública, etc., se batem agora contra um “enorme aumento de impostos”;
  • Estamos num país em que é mais bem aceite aumentar IRS, IMI e IRC, do que aumentar a TSU para os trabalhadores e reduzir para as empresas. Parece que com o aumento da TSU o consumo ia diminuir. Já com o aumento do IRS espera-se, depreendo, que o consumo aumente;
  • Estamos num país em que ser liberal é fazer um “enorme aumento de impostos”.

No meio de todo este ambiente esquizofrénico, é capaz de não ser má ideia relembrar às pessoas que continuamos a dever muito dinheiro e que cada vez devemos mais (é favor ler isto, muito esclarecedor). Assim, temos de decidir: cortar na despesa ou aumentar impostos. Quanto à segunda opção, penso que já todos percebemos o que acontece (Curva de Laffer), portanto é melhor começarmos a esquecer essa receita. Coloca-se então a hipótese do corte na despesa, aquele de que toda a gente fala, mas todos são contra quando chega a hora da verdade. Em primeiro lugar, importa que se conheça a composição da nossa despesa.

Sobre isto, temos mais um momento esquizofrénico, interpretado pelo deputado João Galamba que acha que “Neste momento, cortar na despesa só aumenta o desemprego e a recessão”. No fundo, o que nós precisamos é de manter tudo como está, tem corrido tão bem.
Mas avançando, quando a Vox Pop pede cortes na despesa, tem de ter bem presente o que isto significa e não pode vir criticar cada vez que se tenta cortar no que quer que seja. Claro que o Francisco Assis pode andar de Clio, claro que os deputados podiam ser metade, claro que muitas outras coisas podiam ser mudadas. Mas é incontornável que temos de mudar algo nos 75% de despesas “sociais”.
Uma vez que isto é um blog de saúde, é por aí mesmo que quero ir. “A saúde não tem preço” dirão alguns. Acrescentarão outros “mas tem um custo”. E tem… O nosso SNS custa mais que a média da OCDE, em percentagem do PIB. Podemos dizer que as despesas per capita são abaixo da média, mas isso é comparar o que não tem comparação. Nós até podemos gastar mais, quando produzirmos mais…
Avancemos… Têm vindo a público vários estudos que recomendam remodelações no SNS, nomeadamente encerramento de serviços, reencaminhamento de falsas urgências para os Centros de Saúde, etc. Mas nada tem saído do papel. Os enfermeiros também eram o pilar do SNS e mais umas coisas do género, mas até agora também tem sido só discurso.
Posto isto, urge pensar onde podemos cortar afinal. Certo é que há muito onde cortar sem prejudicar a qualidade dos cuidados. Segundo o Tribunal de Contas (Dezembro de 2011), os hospitais desperdiçam dois milhões por dia. Também em resposta ao Tribunal de Contas, que em Novembro de 2010 apontava para desperdícios na ordem dos 30% no SNS, o ex-Ministro Correia de Campos dizia que os números “não estão comprovados”. Os números podem até nem estar comprovados, mas se compararmos a nossa despesa e os nossos resultados com os de outros países, facilmente perceberemos que gastamos demasiado para, não só para as nossas posses, mas também para os resultados que alcançamos (dados da OCDE e da Comissão Europeia). Concluímos assim que é possível cortar sem prejudicar a qualidade. Aliás, em Portugal temos um exemplo de que cortar na despesa até pode traduzir-se em ganhos em saúde. Um dos nossos indicadores em saúde mais positivos é a mortalidade infantil, que entre muitos outros factores, foi beneficiado com o encerramento de maternidades por Leonor Beleza.
Resumindo, a necessidade de cortar na despesa é inegável e é igualmente inegável que a área da saúde tem de ser abrangida. Importa agora definir onde se pode cortar, mantendo ou melhorando a qualidade e acessibilidade dos cuidados. É a isto que se chama racionalizar…

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5 thoughts on “Cortar claro, mas onde?

  1. O nível de vida médio não é bom, mas é melhor do que se pode pagar. Obviamente o objectivo tem de ser criar riqueza para sustentar a qualidade de vida actual, mas não me parece possível a curto prazo. O que temos é de encontrar o meio-termo que não destrua por completo a qualidade de vida mas que também possamos pagar.As contas públicas não são contas de mercearia, mas às vezes faz falta trazê-las um pouco para as nossas finanças do dia-a-dia, que geralmente são mais bem geridas que as do país.Aumentar a produtividade passa sobretudo por inovar, no que se produz e na forma como se produz. É errado pensar que só por trabalhar mais horas somos mais produtivos. Geralmente verifica-se exactamente o contrário. Para aumentar a produtividade temos de mudar muita coisa, desde as formas de atrair investimento externo até contrariar a aversão que os portugueses têm ao risco. Mas certamente que não é aumentando impostos que conseguimos isso, como tal resta mesmo cortar nas despesas. Até porque muitas delas causam uma dependência do Estado que também em nada contribui para aumentar a produtividade.

  2. A questão é muito simples mas ao mesmo tempo complexa de alcançar.Alguns pressupostos são: O nível de vida médio ou da maioria é bom?O objectivo é encolher a dimensão da qualidade de vida para a riqueza que a sustenta ou devemos querer aumentar a riqueza para sustentar a qualidade de vida actual?Como atingi-lo?É justo olhar para as contas como uma mercearia olha para as despesas? As pessoas são máquinas ou não? Esta pergunta faz sentido na medida em que uma máquina tem um limite de produtividade … e as pessoas? Estão no limite da produtividade? Como aumentar a produtividade?Pessoalmente, se olharmos de forma não holística, ou seja, simplesmente para os números, como se fossemos todos máquinas, naturalmente dir-te-ia que teríamos de cortar em tudo o que representasse a maioria da despesa. Por outro lado, como não somos, é preciso saber como fazê-lo de forma a não diminuir os padrões actuais ( porque eu acredito que é possível fazer isso): aumentando a eficiência e naturalmente a produtividade.Isto do Estado e do resto da sociedade é como uma fábrica: o Estado providencia a manutenção e o resto da fábrica o produto final. Um desequilíbrio é o que se passa actualmente… Mas como atingir um equilíbrio do agrado de todos?

  3. Pois os Hospitais estão no topo dos gastos de saúde, e não foi o facto de se terem mudado para parcerias público privadas, que fez com que diminuíssem os gastos.Logo há que encontrar soluções quer a nível dos lixos, quer dos materiais, que sejam efectivas.Em vez de se cortar constantemente em Recursos Humanos.

  4. Esta notícia/reportagem é um espelho da desorganização completa da gestão dos hospitais: http://www1.ionline.pt/conteudo/142584-aquisicoes-nos-hospitais-do-estado-sao-feitas-sem-rei-nem-roqueHá dias ouvi de colegas que num hospital foi implementada a contagem de termómetros em cada turno porque desapareciam constantemente.E uma questão com a qual em próprio me confrontei quando quis trabalhar como liberal: como fazer a gestão de resíduos? Claro está que para muitos colegas que trabalham no hospital e prestam cuidados como liberais, os resíduos do trabalho liberal vão para o hospital (acredito que não em todos os casos, mas em grande parte).

  5. A solução não está em subir mais impostos evidentemente, porque o consumo vai diminuir e vai gerar mais desemprego, o que não é de todo o que se devia pretender.Seria necessário pedir um alargamento do prazo de modo a amenizar toda a negatividade que se tem introduzido na mente dos Portugueses.E a nível hospitalar, o melhor seria racionalizar no público, como se faz nos privados, ou seja que tal como nos privados se torne obrigatório apontar em sistema informático tudo o que se gasta, isto permite uma melhor gestão de stocks, no início não concordava muito e dá imenso trabalho serem os enfermeiros a introduzir os dados no computador, em Espanha este tipo de registo também era alargado às auxiliares quando iam buscar material. E incrivelmente os gastos diminuem porque as pessoas são responsabilizadas se decidirem levar "compras para casa sem pagar". E também ajuda os armazéns de consumo terem código electrónico de acesso, porque assim sabe-se efectivamente quem esteve lá.É um mau hábito em Portugal, a seguinte realidade "ora deixa cá ver se posso levar o betadine, uns pensos, alguns medicamentos, etc… todos temos de ter consciência que se requer um SNS sustentável, e que as medidas dentro de um serviço de qualidade prestado ao utente/família, tornou-se uma prioridade.Mas basta num futuro próximo delinear as que melhor se ajustam e que sejam vantajosas.

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