Desemprego em enfermagem e oferta formativa

Nos últimos dias, grande parte das atenções mediáticas focou-se na carta de um enfermeiro que emigrou. De repente, o país acordou para a realidade da emigração de enfermeiros e as opiniões dividiram-se entre os ataques as governantes que não deixam os jovens trabalhar no seu país e os ataques às “lamechices” dos enfermeiros que se queixam quando têm mais facilidade em emigrar do que a grande parte das outras profissões. Quem estiver atento às redes sociais verá este episódio não melhorou nada a imagem que as pessoas têm dos enfermeiros. Houve quem nos acusasse de acharmos que somos superiores e nunca devíamos ter de emigrar como o comum dos mortais e quem dissesse que achamos que como o Estado nos pagou o curso, tem a obrigação de também nos dar emprego, ou seja, pedimos tudo ao Estado.
Mas a verdade é que temos mesmo um problema para resolver e não é só lamechices e pedinchar tudo ao Estado. É mesmo porque o Estado gasta centenas de milhares de euros anualmente a formar enfermeiros dos quais o mercado de trabalho não precisa (não vou dizer que sejam ou não precisos, mas não têm lugar no mercado de trabalho). Vivemos numa sociedade em que durante anos nos foi dito que o sector do futuro são os serviços. Mas há eventualmente alguma sociedade que viva de serviços? Todos nós temos culpa por termos ido na cantiga, que só podia falhar. Mas o Estado tem culpa por continuar a incentivar-nos a cair no erro, financiando os cursos com o nosso próprio dinheiro.
O que podemos fazer? Para começar é urgente diminuir drasticamente o ensino de enfermagem (e não só) no ensino superior público. Depois, nas profissões reguladas, como a nossa, há que garantir que só pode exercer quem tenha tido determinadas condições durante a formação (por exemplo, não permitir que se faça estágio de pediatria em infantários). E aí a OE pode realmente ter um papel importante. A ideia não é seguir a filosofia da OM que “manda” no número de vagas, é estabelecer critérios de qualidade, que naturalmente levarão a que haja menos vagas.
O Estado assim deixa de gastar os nossos impostos a formar pessoas de que o mercado nacional não precisa e quem vai para enfermagem e fica desempregado deixa de poder culpar o Estado, porque este deu um sinal de que não precisava de mais enfermeiros.
Ganha o Estado, ganham os cidadãos (que vêem os seu dinheiro ser bem gerido e que também vêem garantida a qualidade dos profissionais) e ganham os profissionais, porque pelas leis do mercado os salários acabarão por subir.
Quanto à situação actual, deixemos de nos lamentar, o Estado não tem a obrigação de garantir emprego a ninguém e muito menos na sua área de formação. E a emigração não é nenhuma novidade. Além do mais, o Estado até já investiu muito em nós, não podemos continuar a achar que temos o direito de lhe pedir tudo. E muitos de nós (eu incluído) já entrámos no curso numa altura em que se previa este futuro, não nos podemos desresponsabilizar pelas nossas decisões.

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3 thoughts on “Desemprego em enfermagem e oferta formativa

  1. "É mesmo porque o Estado gasta centenas de milhares de euros anualmente a formar enfermeiros dos quais o mercado de trabalho não precisa (não vou dizer que sejam ou não precisos, mas não têm lugar no mercado de trabalho)."O mercado de trabalho PRECISA MESMO de Enfermeiros. Os hospitais DESESPERAM por enfermeiros. As pessoas AGONIZAM por falta de enfermeiros. A questão vai além do excesso formativo das escolas. Há um plano estratégico de ensino da enfermagem apresentado em 2008 que nunca saiu da gaveta do ministro, não convinha… Agora o que está a dizer é uma meia verdade: a metade é que a sociedade não teve visão estratégica quando se pos a formar enfermeiros demais, advogados demais, engenheiros a mais…A outra metade é que HÁ UMA FALTA CADA VEZ MAIOR DE ENFEMREIROS NOS HOSPITAIS, CENTROS DE SAÚDE E UNIDADES DE CUIDADOS CONTINUADOS, e essa falta está a crescer, curiosamente quando temos tantos colegas a emigrar! TODOS OS QUE ESTAO FORMADOS AGORA SÃO PRECISOS! Só em lares nem se fala…As dotações e os cuidados são deficitários e inseguros, causando muitas vezes prejuízos BEM SUPERIORES do que se tivessem mais UM OU DOIS ENFERMEIROS CONTRATADOS.Falta a visão estratégica, falta a justiça, agora por favor não volte a dizer que o mercado nao precisa de enfermeiros… A maioria das pessoas não faz ideia o quanto precisa de mais enfermeiros nas instituições de saúde! Há muito desperdício que pode ser cortado, sem perda de ganhos em saúde! Concentre-se é nisso!!!!

  2. O Estado não tem culpa de tudo o que acontece na Enfermagem, nós Enfermeiros tomamos uma decisão ser Enfermeiros, mas antes de ser Enfermeira já era uma pessoa, a nível profissional acho que tem de haver bolsas, que prevejam, por exemplo um contrato para cobrir vaga de um colega que solicita baixa de maternidade, entre outras situações.Que sem dúvida o resto de colegas não devem ter "mais trabalho", porque as contratações neste âmbito são inexistentes, apesar que existem nalgumas instituições.Depois nós também temos de aprender a interiorizar o conceito mobilidade e flexibilidade, e que um emprego não é para toda a vida, no mesmo serviço. Existem as chamadas excepções que seriam as especializações, que como bem sabemos e infelizmente, muitos dos colegas especialistas não trabalham na área que se especializaram.E sobretudo que as avaliações têm e devem ser rigorosas porque Ser Enfermeiro e Estar em Enfermagem requer Humanismo, forte capacidade de responsabilidade, espírito de inter ajuda, adaptação, formação contínua e reciclagem, capacidade de observação, entre muitas outras características e no fundo para quem gosta é aliciante, e deveras gratificante.Emigrar abre horizontes,nem percebo porque é que este contexto se tornou tão negativo, no fundo sempre fomos um País de Emigrantes, não é fácil para ninguém, nem simples, nem redutível,em nenhuma profissão e mesmo sem curso superior,é uma grande decisão, mas se uma pessoa se agarrar aos pontos positivos é uma experiência extraordinária, aprender outro idioma, ler, abrir-se ao Mundo e a outras culturas, e ter o privilégio de conhecer um País diferente do nosso é enriquecedor.Eu de mim falo, que neste momento volto a ter a oportunidade de voltar a emigrar, considero um privilégio poder voltar a exercer Enfermagem lá fora, e desta vez num projecto à volta do Mundo, tudo na vida depende de como interiorizamos a nossa realidade, e da procura da nossa construção como indivíduo.

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