Sr. Rodrigo, rapazinho, jovem, Rodrigo ou Enfermeiro Rodrigo?

Olá a todos! 

Sou Rodrigo Cardoso, Enfermeiro, Português, tendencialmente optimista!

Queria agradecer, genuinamente, o convite que o Mauro me fez para participar neste espaço de partilha, discussão, debate e, espero, de encontro de soluções! Depois, pretendo saudar todos aqueles que lêem este blogue e dizer que espero estar à altura das múltiplas e boas intervenções que tenho lido até então!

Esta é mais uma voz, mais uma opinião, por vezes outro ponto de vista, outra perspectiva! O desafio está lançado! O trabalho é imenso e o caminho é longo, mas pretendo, com a minha participação, contribuir para a reflexão sobre a visibilidade da profissão na sociedade.

Os Enfermeiros, por razões históricas, culturais e ideológicas, têm adoptado, partilhado e incutido nos novos profissionais, um SILÊNCIO aterrador sobre o seu trabalho, o seu valor, os ganhos de saúde e bem-estar que produzem nos cidadãos. Chega a dar dó as vezes que nos auto-silenciamos, que criticamos negativamente e por conseguinte calamos o colega de serviço, que recusamos assumir a responsabilidade por aquilo que fazemos BEM.

É por isso que, na sociedade portuguesa (sim, eu sei, alguns já vão dizer que a culpa é dos “outros” que não nos deixam falar), o cidadão comum, o idoso, a grávida, o gestor e o político continuam, na grande maioria das vezes, sem saber o que faz um enfermeiro. Se não sabem, naturalmente, não defendem, fazem defender, ou respeitar condições dignas de trabalho, dotações seguras, desenvolvimento profissional ou até avanço da investigação e educação.

Por sua vez, os enfermeiros que não estão calados, têm vindo a expressar-se (por via, quiçá da crise socioeconómica) de forma tendencialmente negativa, ocupando o espaço mediático quase somente com QUEIXAS, DENÚNCIAS, CRÍTICAS, tudo menos o necessário para aumentar a compreensão da sociedade sobre o seu papel.

O comum mortal preocupa-se, só e apenas, com o que lhe interessa A SI MESMO, À SUA saúde, às SUAS finanças, ao SEU bem-estar. E a “conversa” dos enfermeiros, estranhe-se, é que não ganham bem, que são explorados, que têm más condições de trabalho. Tudo isto é VERDADE, mas o comum cidadão só ouve EU EU EU EU, quando o que lhe interessa é ouvir CIDADÃO CIDADÃO CIDADÃO…

Há que mudar de estratégia e, mal ou bem, olhe-se para o “outro” prestador central de cuidados de saúde e vejamos que, nas suas reivindicações últimas, a conversa foi toda CIDADÃO-CIDADÃO-EU-CIDADÃO-CIDADÃO. E isso levou-os aonde? A 2,746€ por mês…

Sim, eu sei: a conjuntura é complexa, cheia de variáveis, a vida não está fácil para os enfermeiros, a crise não ajuda… Vamos por isso pensar, passo a passo, que PORMENORES podem ajudar a gerar MUDANÇA!




Quando alguns enfermeiros procuram um colega, durante o horário de trabalho, e não o encontram, têm por hábito fazer duas coisas: gritar no meio do corredor pelo colega e chamá-lo pelo nome próprio – Ó JOÃO! JOÃOOOOO???
Ele é “António chega aqui”, é  “está ali o Edgar, ele esclarece-lhe a dúvida” e um rol de uso de nomes próprios em frente a utentes e famílias contínuo…

“Mas que mal tem isso, se usar o nome próprio quando me apresento aos doentes faz com que consiga estabelecer uma relação mais rápido?” ou “Não gosto de ser chamada Enfermeira isto ou aquilo, sou muito nova e não soa muito bem…” 

Vejamos:
– No vosso local de trabalho observem quantos profissionais, para além de enfermeiros, têm por hábito tratar-se por tu em frente aos doentes, famílias e até a outros profissionais? 
– A Sara vai ao cinema, gosta de falar ao telemóvel, mas será que é uma pessoa capaz de ficar responsável pela “minha” saúde? Será que, consciente ou inconscientemente, o utente percepciona a Sara como profissional, quando ouve este tratamento vezes e vezes sem conta? Ou será que confia mais na Enfermeira Sara?
– Será que o facto de ser tratada por Enfermeira Sara vai fazer com que ela tenha mais ou menos dificuldade em relacionar-se com os doentes do que se for tratada por Sara?
O que se pretende da relação enfermeiro/doente? Amizade ou uma relação baseada numa comunicação treinada (por parte do enfermeiro) e com um objectivo específico (apoio emocional, recolha de informação que permita a intervenção do enfermeiro…)?
– Já foram tratados por “tu” por algum utente? Como se sentiram? Confortáveis?
– É comum os ouvir os utentes tratar os outros profissionais por “tu”?
Como é que somos tratados pelos outros profissionais? É por Enfermeiro Rodrigo ou eu trato o médico por Dr. X e ele trata-me por Rodrigo? Não será uma relação assimétrica? O que a motivou? Poderá ter sido causada pelo facto de o médico, ao ouvir todos os dias “Rodrigo isto e aquilo”, acredita que me pode tratar também por Rodrigo?

Resumindo, o que FALAMOS define o modo como somos TRATADOS. Se queremos ser vistos, ouvidos e respeitados COMO PROFISSIONAIS, então não somos a tatiana, o carlos ou a raquel. Somos o Enfermeiro A, B, ou C. 

E é do Enfermeiro Rodrigo que eu quero uma dada opinião enquanto outro profissional de saúde, é do Enfermeiro Rodrigo que eu espero a resolução do meu problema de saúde enquanto utente, é do Enfermeiro Rodrigo que a Instituição espera cuidados de qualidade e competência. O Rodrigo está lá fora, a tomar café, a dormir, a correr…

Sugiro uma experiência: durante três semanas, apresente-se aos utentes de modo diferente aquando do primeiro contacto/acolhimento. Na primeira semana apresente-se com o nome próprio “Olá, eu sou o Rodrigo, enfermeiro…”. Na segunda “Olá eu sou o Enfermeiro Rodrigo….”. Na terceira “Olá, eu sou o Enfermeiro Rodrigo Cardoso…” 

Verifique, depois e atentamente, qual a sua relação com os utentes, quantos o tratam por “tu” ou por você, ou por outros termos (menina, senhora, etc etc) e se atingiu os seus objectivos enquanto prestador de cuidados de saúde!


Fica aberta a discussão! 🙂
 

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One thought on “Sr. Rodrigo, rapazinho, jovem, Rodrigo ou Enfermeiro Rodrigo?

  1. Olá Enfermeiro Rodrigo. Bem vindo ;)Concordo com o seu pensamento, no qual afirma que devemos ser nós próprios a transmitir uma postura profissional, se bem que é lógico que existem momentos em que quebramos essa barreira (não num primeiro contato, não quando o utente ou o familiar, ou o colega profissional tem alguém do seu lado que nos é desconhecido), tais como por exemplo quando criamos uma boa relação com colegas ou outros profissionais e quando "a sós" nos tratamos por tu (porque existe mais do que uma relação profissional, existe também pessoal). Porque este aspeto não impede que eu tenha uma boa relação com os familiares ou utente, mas sim favorece a criação de um respeito mútuo e pelo meu trabalho/minha profissão (assim como eu reconheço que devo prestar os meus cuidados com qualidade).Onde trabalho temos internamentos até 3 meses e 9 meses (ou mais), criando-se com uma certa facilidade uma relação de empatia, respeito e confiança (não deixa de ser um processo complexo) com o utente/familiares. É claro que pontualmente surgem utentes ou familiares, que dificultam ao máximo a criação desse processo, mas para isso temos de saber ser profissionais, competentes e assertivos. Cumprimentos,Vítor

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