Calibrar as Socas

Há pouco tempo atrás tive necessidade de substituir os pneus.

Sim, esses “sapatos” de borracha que ajudam os carros a deslocar-se, suportando o atrito da estrada e absorvendo alguns dos muitos buracos que preenchem as estradas do nosso querido Portugal.

Chegando à loja em questão, deparei-me com a lista de preços:

– Calibrar direcção: 20€.
– Pneu a – 100€ un.
– Pneu b – 86€ un.
– Pneu c – 50€ un. (chinês).
….

E a lista continuava… Aproveitei a espera para observar o trabalho de quem enchia pneus, subia carros em plataformas, usava desaparafusadores hidráulicos (que tanto jeito davam quando temos um furo no meio do nada) e olhava para o computador, em busca da perfeição do trabalho efetuado.

E nisto pensei. Ok, estes Senhores sabem o que fazem, têm experiência, conhecimento, prática. Dei comigo a olhar para um deles, que calibrava a direcção de um automóvel. O procedimento era aparentemente simples: colocar o carro em cima da maquina, ir orientando a direcção e os pneus, observar o resultado no computador, fazer mais ajustes.

Pumba. Toma lá 20€. Ok. Custou-me. Não digo que não. Mas é trabalho que eu não sei, não consigo fazer, nem disponho dos meios técnicos para tal. 

Então mas o que é que se passa quando a maioria dos enfermeiros oferece o seu trabalho quase de borla na comunidade? 
Que seja na família, ainda é “como o outro”, mas o que se vê e ouve, repetidamente, é que os enfermeiros administram injectáveis, realizam pensos, ensinos, recuperam a autonomia da pessoa… mas não cobram nada em troca!

Nada? Mas mesmo nada? “ah, era meu vizinho…” “ah, deu-me uma couve na semana passada…” “ah, ah, ah”.

A maioria dos portugueses conhece um enfermeiro ou outro. A maioria pede “favores”, que não são mais que cuidados de saúde. Os enfermeiros, acanhados, nada pedem em troca… À custa disso, generalizou-se a ideia que cuidados de enfermagem são de borla! Ao ponto de, em dias de greve, se verem na TV pessoas indignadas “porque tive de pagar para levar uma injecção!”.

Quantas vezes as pessoas vão a um consultório médico, ouvir que têm de comer mais legumes e beber mais água, e no final têm uma conta de 50€ para pagar? E quantas reclamam disso?

Quantas pessoas que têm  de cuidar esporadicamente de outras, dizem “agora vou ser o teu enfermeiro”?

Quantas pessoas pensam que os cuidados de um enfermeiro são “naturalmente” ordenados por outros profissionais e que o enfermeiro só lá está a cumprir?

Caríssimos, quando vamos começar a estipular um valor por “calibrar as nossas socas”? Quando vamos ter respeito próprio, bom-senso e auto-estima suficiente para dizer que os nossos cuidados têm valor?

Quando vamos começar a explicar às outras pessoas os juízos clínicos subjacentes aos nossos ensinos e os outcomes esperados para aquele familiar dependente?

Caríssimos: a nossa lista de preços tem mais itens que uma boa casa de pneus. Tem serviços que oferecem bem-estar, saúde, qualidade de vida, independência, apaziguamento, companhia e sobretudo VIDA.  

Se paga por um pneu, não pagaria por tudo isto?

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9 thoughts on “Calibrar as Socas

  1. Sugiro mesmo uma pesquisa ( basta no google) sobre modelos de financiamento, história dos GDH's (DRG em inglês) e versões dos mesmos. Perguntarem-se como são construídos, que dados incluem e da sua capacidade explicatória dos custos com os cuidados de saúde. Que sectores cobrem ( internamento, ambulatório, urgência?) e que dados são recolhidos para a sua construção.Perceberão então a importância dos sistemas de informação 🙂 e da necessidade de transparência nos custos e na correcta atribuição da autoria dos actos e responsabilidades… e acima de tudo o quão desigual e iníquo é o sistema actual ( quer em Portugal que na maior parte do mundo) e como esse sistema induz ( ao procurar indicadores que podem ser os errados) uma produção na Saúde muitas vezes inversa ao interesse dos profissionais e dos doentes…Não queria falar mais do que isto porque é demasiado abrangente, espero ter-vos aberto o apetite 🙂

  2. ehehehisso foi mais uma ideia genuína importada do estrangeiro… nós cá é assim! andamos é sempre 10 anos atrasados! para o bem e para o mal!nessa altura acho que nem contavam com os enfermeiros era para nada… mas lá está.. como é que isto muda?só com a construção e disseminação massiva de evidência!!!! que eles saber sabem, aliás eu acho que eles se pelam de medo que nós tomemos consciencia do real valor do nosso trabalho!QUANDO isso ACONTECER e os enfermeiros, de todos os sectores, em massa, exigirem que lhes sejam imputados os ganhos em saúde que produzem, dar-se-á uma revolução nos cuidados de saúde em Portugal!!

  3. http://portalcodgdh.min-saude.pt/index.php/Grupos_de_Diagn%C3%B3sticos_Homog%C3%A9neos_(GDH)Eu sei porque não existem referencias a Enfermagem NESSE decreto, o que eu quis dizer, é que não encontrei nada de parecido relativo a Enfermagem, ou seja, não existe, ou se existe eu não encontro nenhum artigo que inclua os Enfermeiros no "conjunto de bens e serviços que cada doente recebe em função das suas necessidades". Para mim este facto reflecte que para o Ministério da Saúde, os Enfermeiros não desempenham funções que tenham "peso relativo, no custo esperado com o tratamento de um doente", o que é totalmente falso, como facilmente seria comprovado, se produzíssemos indicadores de saúde de Enfermeiros.

Sem censura... mas sem ilegalidade e acima de tudo com o sentido de responsabilidade. Opiniões contrárias não são só aceitáveis... são desejáveis... mas for favor identifique-se, nem que seja com pseudónimo

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