O cuidado que mata

Acredito que muita gente se deve ter queixado, muitos enfermeiros devem ter evidenciado o valor dos seus cuidados e as consequências da falta dos mesmos…

Houve queixas para “Ordem” dos Enfermeiros do Reino Unido, às quais não se deu seguimento, houve encapotamento, visão economicista e perda de bom senso em todos os níveis de atuação.

Resultado, o mundo em geral fica a saber que, entre outros cuidados de saúde, os cuidados prestados por enfermeiros são fundamentais. Mas fica a sabê-lo, mais uma vez, por tristes razões, aquelas que são negativas e desprestigiantes. É preciso acontecerem tragédias para que a sociedade reconheça uma falta. Esta foi mais uma delas.

O Hospital de Stafford, no Reino Unido, foi investigado porque, segundo o Negócios Online, morreram em média mais 400 a 1200 utentes que o habitual. Quando foram investigar verdadeiramente o que se passava, ficaram chocados: utentes sem acesso a comida, água, ou uso dos sanitários. Resumindo, as condições mais básicas para a vida eram negadas a estes utentes. Da mesma forma, médicos sem experiência atendiam doentes criticos e os gestores atuavam na observância de regras cegas e tendencialmente economicistas.

“Esta é uma história de horrível e escusado sofrimento de centenas de pessoas. Não foram atendidas por um sistema que ignorou os sinais de alerta e colocou o interesse corporativo e o controlo de custos acima dos doentes e da sua segurança” – uma das conclusões do estudo.

Disseram também: “Centenas de pessoas sofreram uma terrível negligência e maus tratos”, expôs frente aos deputados. “A muitos foi-lhes administrada a medicação errada. Muitos permaneceram deitados em cima da própria urina, por falta de ajuda. Os familiares eram ignorados ou repreendidos quando chamavam a atenção para a falta de cuidados mais elementares, quando tentavam salvar os seus entes queridos de um sofrimento terrível e mesmo da morte”

Até agora ainda ninguém foi responsabilizado e penalizado, mas já se ganhou consciência crescente da problemática. O primeiro ministro britânico … “já avançou que os enfermeiros são o grupo-chave para melhorar a experiência dos pacientes e, como tal, poderão vir a ser pagos com base na forma como tratam dos doentes.”

Então e cá em Portugal? O que é que se está a passar? Será preciso que morram também tantos doentes, para que se chame mais atenção sobre a temática?

É preciso que a “namorada” deixe de passar a ferro, para que eu sinta a falta das camisas engomadas? Isto é, até quando, neste País, vão continuar a ignorar o papel fundamental dos enfermeiros nos cuidados de saúde?  

É que não nos podemos dar ao luxo de uma tragédia desta dimensão…. 


Pede-se também às organizações da Profissão que saibam capitalizar este evento, de forma a que não se verifique, com este impacto, no nosso País.

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4 thoughts on “O cuidado que mata

  1. Huumm…duvido que a ideia seja assim tão justa e pura. No Reino Unido sempre se prometeu valorizar os Enfermeiros e sempre se fez o contrário. Sempre colocaram a enfermagem no pedestal mas nunca conseguiram tornar a profissão atractiva para os ingleses, e a prova disso é que dois terços dos Enf. em Inglaterra são Indianos,africanos e asiáticos, que atraídos pela autorização de residência aceitam baixos salários pela sua baixa qualificação. É esta a causa de desgraças como a relatada no tablóide. Receio que esta "intenção" manifestada, seja para tranquilizar os utentes, mais do que para corrigir a situação que é já crónica e se degradou tanto que será preciso uma cascata de milhões para a resolver. Por enquanto os Enfermeiros portugueses vão ajudando por lá, a troco de dois ou três mil Euros mensais, mas…não nos esqueçamos que uma secretária administrativa hospitalar ganha quatro ou cinco mil, ou seja, muito mais do que um Enfermeiro.

  2. Se olhar para a medida como um aspeto punitivo, ok, é tudo o que acabou de dizer no comentário anterior…E se, antes pelo contrário, os enfermeiros que tratarem melhor dos utentes possam receber mais do que o que recebem atualmente? É que notícias veiculadas por colegas que trabalham no UK, revelam que o Governo pretende fazer uma aposta nos enfermeiros, ao nível da formação, mas também das retribuições.Tratar mal os doentes… se há quem o faça por não ter o mínimo de tempo para prestar cuidados adequados, também há quem seja negligente nos cuidados que presta, quem seja mal educado nos contactos com os utentes, que não tenha a mínima capacidade de comunicação interpessoal… E o que é que lhes tem acontecido nestes últimos anos? NADA. Ganham o mesmo, têm a mesma nota nas avaliações e ainda se riem dos colegas que tentam fazer algum trabalho para mudar!Penso que, por isso mesmo, a questão não é tão linear assim…

  3. "Os enfermeiros poderão vir a ser pagos com base na forma como tratam os doentes". Belo juízo sim senhor…quer dizer que se resolve o problema da falta de enfermeiros castigando os que lá estão, com um corte no salário? quer dizer que já arranjaram os culpados e prometem ser severos para com os que aceitam trabalhar naquele inferno? Quer dizer que se preparam para prover a falta de enfermeiros com uma medida administrativa/punitiva. Por quanto tempo mais conseguirão impor estas mentiras aos cidadãos?

  4. Por cá?Quanto tempo estão doentes com dores? Quanto tempo estão sem acesso a terapia analgésica desde que entram num SU?Quanto tempo estão sem uma avaliação das suas incapacidades e portanto de planeamento quanto à necessidade de comerem, andarem, irem à casa de banho, estarem na presença dos seus familiares, terem acesso a informação sobre o seu estado de saúde?Às tantas não há dados sobre isso e se calhar… é melhor nem saber…

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