Fazer ou não fazer greve, eis a questão

Decorreu hoje a greve dos Enfermeiros que estão com Contrato Individual de Trabalho (CIT).
 (http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=71028#.UUITsyHKgfg.facebook)

Uma atividade comedida, dado o número de Enfermeiros com este tipo de contrato, mas enérgica e participada. O objetivo é exigir a igualdade de salários entre enfermeiros da Ex Função Pública (CTFP) e os CIT, na primeira posição da tabela remuneratória, 1201€.

De facto, não faz qualquer sentido pensarmos que enfermeiros com 35h de trabalho semanal auferem 1201€ e enfermeiros com 40h semanais cerca de 1180€. Foi isso mesmo que leu, MAIS 20 horas de trabalho por mês, compensados com MENOS 20€ de ordenado. Uma riqueza, um prodígio da organização e gestão hospitalar! Para além da situação constrangedora indiciar a má intenção do Governo, ao manter separadas as carreiras de enfermagem, esta poderá colocar em causa vidas humanas, na medida em que já está PROVADO cientificamente que maus ambientes de trabalho contribuem para a redução de ganhos em saúde dos doentes (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17962497, http://www.aacn.org/WD/HWE/Docs/ExecSum.pdf
https://crnbc.ca/Standards/Lists/StandardResources/412qualitypracticeenvironments.pdf, http://repository.upenn.edu/dissertations/AAI3003692/).

Se estiver desmotivado, a receber menos por trabalhar mais, a não receber devidamente pelas tardes, noites e feriados que trabalha, provavelmente terá menos apetência para desempenhar as suas funções e surgirão mais conflitos e alheamento, agravando significativamente a comunicação numa área tão sensível como a dos cuidados de  saúde.

E apesar de ter participado na referida greve, pois mais vale fazer algo que ficar em casa sozinho a criticar, não concordo com essa forma de luta. O tempo das bandeirinhas, dos cantos de ordem e da mobilização massiva de pessoas para a frente de edifícios governamentais durante o dia já passou. A sociedade mudou, a legislação altera-se a cada dia que passa, os governantes escudam-se na austeridade para forçar as medidas que bem lhes apetece. Estratégia, nem vê-la, pois o que interessa é cortar, cada vez mais e mais depressa.

Só que os enfermeiros ainda não perceberam. Que não é assim que se ganham batalhas, que não é falando do nosso umbigo na comunicação social que as pessoas se vão importar. Elas já têm tantos problemas e têm, para que chatearem-se com o dos Enfermeiros? E o pior problema, não sabem eles (os cidadãos), é que as políticas de saúde medicocentristas e hospitalocêntricas só geram mais despesa! Apostar em cuidados de saúde primários verdadeiramente acessíveis e com um forte pendor na enfermagem não é para os nossos políticos, não hoje.

Os políticos acreditam que o caminho da saúde está traçado, só falta fazer uns remendos aqui e ali. Mas não, são precisas reformas estruturais. Os doentes precisam de reformas e de políticas que os beneficiem, e não aos profissionais de saúde. Então fomos para a rua, exigir igualdade. Lá se entregaram os documentos, lá se chutou a culpa para o Governo, “que nós não sabiamos…” disto ou daquilo. E ficou assim. Vamos lá voltar outra vez? Disseram-me que sim, mas eu não acredito muito.

Vivemos na sociedade de informação. Os media veiculam imagens sobre a realidade que as pessoas consomem sem pensar duas vezes. Tenhamos a informação como nossa aliada. Saibamos fazer uma guerra mediática, com e para os utentes, para que se possam aperceber como os cortes na enfermagem os afectam a eles. Depois, vamos pensar fora da caixa. Esqueçam lá as bandeiras. Há uma fasquia que vai daqui até à violência, intolerável e moralmente reprovável.

Sem passar a fasquia, temos um mundo de estratégias de reivindicação, que de novas e frescas podem chamar a atenção do país sobre o assunto.Esqueçam lá as bandeiras! Se é para lutar, que seja com armas adequadas à realidade atual (e não as de há 20 anos atrás!!!)!

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