Saúde, uma área de "negócio" estranha

É já quase tradição dizer que a despesa em Saúde não pode ser muito elevada e tal mas, numa nação de hipocondríacos em que apenas 49% dos portugueses acha que tem boa ou muito boa saúde ( ver quadro 1 abaixo), limitar ou condenar nem que seja moralmente o uso dos serviços de saúde por parte dos portugueses é ir frontalmente contra as suas expectativas como cidadãos e como contribuintes.

Já alguém perguntou quanto querem os Portugueses gastarem, da fatia total do Orçamento de Estado, na Saúde?

Não considerando viável aumentar os impostos e assim engordar o Orçamento Geral do Estado, faria muito mais sentido redireccionar as verbas para a Saúde e diminuir outras áreas em que existem outras formas de administração dos recursos mais eficazes do que o Estado, sendo até já de comum acordo e tradição que o Estado ou a Sociedade deve providenciar cuidados de saúde à população, à semelhança doutras funções essenciais como Educação, Justiça ou Segurança, é de entender que os Impostos sirvam para esta função.

Porém tal emperra no Paternalismo actual do Estado e que o comum dos Profissionais de Saúde e gestores da área do Estado já assimilou… que tem de se controlar o comportamento das pessoas, no que à Saúde diz respeito.

É comum o discurso… Não se pode ir tanto às Urgências ou que se deve privilegiar os Cuidados de Saúde Primários, ou que o rácio de enfermeiros, de médicos ou de qualquer profissional está desadequado ou que quem deve determinar as preferências dos doentes é o sistema e não o seu contrário… porém tal está a colidir perfeitamente com a realidade e um dos exemplos desta ideologia propagandeada até à exaustão é o caso paradigmático das Urgências… Não só Portuguesas mas a nível mundial.

Onde se pode encontrar um choque tão grande entre aquilo que “Nós” ( os planeadores e prestadores do sistema) achamos que deve ser um Serviço de Urgência e aquilo que as pessoas procuram e precisam? A sobrelotação, o abusar do paradigma de que a oferta de profissionais aumenta a procura dos utentes, a pressão sobre os recursos humanos do SU para responder à eterna falha na modelação da procura das pessoas ( a não ser com perda de percepção de qualidade e acesso por parte dos utentes) simplesmente porque… o Sistema é assim… As pessoas utilizadoras do Sistema é que não sabem (sarcasmo).

Ora como se tem tentado combater esta predisposição dos Portugueses (tendo em linha de conta a menor autopercepção do estado de saúde)? Dizendo-lhe que estão errados… mas dificultando-lhes muito a vida. Ora aumentando as taxas moderadoras ( que quem as paga já é quem paga previamente os impostos), ora mantendo a espera alta (na esperança que desistam ou adoeçam ainda mais ou morram), ora aumentando os impostos e investindo o dinheiro em estruturas que eles não procuram.

Ora eu, como utente, porque procuraria um Serviço de Urgência?

Porque tenho acesso a segurança, ao ter acesso a cuidados rápidos e meios de diagnóstico que me permitiriam saber que afinal continuo saudável?

Porque tenho acesso a cuidados com um tempo de espera diminuto face ao que demoraria noutro local?

Porque tempo de espera e acessibilidade são factores que levo muito em conta. Alguém gosta de esperar dias por um Exame que pode mudar decisivamente a minha vida? Alguém gosta de estar limitado na escolha dum qualquer serviço por falta de opção?

Então… pensando nestes termos, não seria de supor que um Sistema que se diz benevolente, democrático, para o povo ( sarcasmo), este não se deveria adaptar de forma a corresponder às expectativas dos cidadãos? Incorporando e melhorando no sistema aquilo que as pessoas procuram?

Alguém imagina um qualquer Estado a controlar a venda de telemóveis de acordo com o que julga ser melhor para os cidadãos? A esta altura ainda não existiria um Iphone 5 ou um Samsung Galaxy 4 e apenas poderíamos usar o telemóvel segundo instruções predeterminadas… Olha se alguém se lembra que a despesa que temos em Telemóveis tem de ser predeterminada?

Ou alguém imagina que uma qualquer Instituição de Saúde, por ter tanto sucesso, ao atrair vários clientes, pelas características que o utente acha mais atractivas, seja precisamente a que irá mais rapidamente entrar em bancarrota por excesso de procura de clientes?

Negócio estranho a Saúde, em que se quer ter as pessoas insatisfeitas, ou criando condições para isso( asfixiando a capacidade das melhores instituições/os melhores profissionais captarem mais clientes) e se uma instituição que atraia muita gente seja a que está ameaçada de derrocada financeira.

Noutra qualquer área, quanto mais clientes mais sucesso teria uma empresa e melhor indicador de percepção de qualidade do produto dessa empresa teriam os clientes… estranho não é?

Depois podemos argumentar que assim não se investiria na prevenção e coisa e tal. Ora sendo isto uma simples aleivosia amadora, arrisco-me a dizer que isso não é linear, dado que existindo maior liberdade de escolha das pessoas, também a qualidade aumentaria e a exigência também, sendo por isso de esperar que as pessoas procurem aquilo que lhes pareceria mais racional, seja a curto como a longo prazo e como tal tomariam as decisões que melhor se encaixassem na sua forma de estar na vida, na melhor forma de ficarem satisfeitas e portanto, não seria de esperar que estas desinvestissem em hábitos de vida de conduzissem a uma vida mais saudável e duradoura( duvido que um pai ou mãe preocupado não quisesse ter o estilo de vida mais saudável para prover aos seus rebentos durante uma mais longa vida).

Sei que isto pode esbarrar na questão da suposta gratuitidade e portanto dum acesso/procura alterado face a um “Negócio” diferente, mas que isto cria uma grande pressão nas expectativas dos utentes e portanto nos profissionais de saúde que dão a cara… lá isso cria… e depois coramos de admiração com valores como os apontados abaixo… Não que se resolvesse o problema, mas pelo menos a satisfação com o “Sistema de saúde” teria condições para melhorar lá isso teria…
Mas o sistema já não é nem nunca foi gratuito e cada vez exclui mais… e como sou defensor de que algo gratuito é abusado, nem que se pague progressivamente, começando em 1 cêntimo, nada pode ser “gratuito”.

Porque cada país tem uma cultura diferente e as pessoas são todas diferentes… e em Portugal até pode ser normal gastar 20% do PIB em Saúde…

Não há quem gaste semelhante noutras áreas?

Por um sistema de Saúde mais virado para o cidadão e menos para aquilo que o “Sistema” acha que deve ser…

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