Vote, pela sua saúde!


Há em Portugal uma certa tendência para se considerar o poder autárquico como o “lado bom” da política. Dizem alguns, que no Governo se assiste recorrentemente ao chamado crime de colarinho branco, enquanto que nas autarquias, existe a (genuína) proximidade ao cidadão. É este fenómeno, pelo menos em parte, que explica a existência dos chamados dinossauros autárquicos (Braga e Vila Nova de Poiares; Benavente, Serpa e Chamusca; Vila do Conde e Sobral de Monte Agraço; Viseu).
Mas será que isto corresponde à realidade?
A recente fusão das freguesias corresponde a uma (necessária) actualização territorial do país. É questionável a forma como foi feita, já que não se perguntou às populações se preferiam unir-se à freguesia A ou B (pelo menos, foi isto que se verificou em muitas localidades). Alguém entendeu que tinha legitimidade para decidir em vez do “povo”.
Os nossos credores também recomendaram (e bem) uma reforma desse tipo, ao nível dos concelhos. Porque será que não foi feita?
Será que na gestão dos concelhos, e como nos alerta Paulo Morais, existe muita corrupção? Empresas municipais para dar emprego aos amigos? Adjudicação de obras a empresas da mesma cor política? Troca de favores entre dirigentes e promotores imobiliários? Ou, como nos diz José Gomes Ferreira, há gabinetes camarários não se sabe muito bem para quê, a não ser bloquear a aprovação de projectos (e criação de emprego) que contribuiriam para o desenvolvimento de uma determinada região?
Num cenário destes, a lei da limitação de mandatos é mais do que obrigatória. Concordo com os que defendem, que esta lei, por si só, de pouco serve. É preciso mais: é fundamental que os cidadãos estejam atentos à realidade. E que protestem, nos actos eleitorais, dando oportunidade a candidatos que falem verdade.
A noite das eleições autárquicas é sempre um momento muito interessante de acompanhar. O eterno braço de ferro entre PS e PSD: quem tem mais votos e quem tem mais autarquias. A disputa pelas capitais de distrito assume particular relevo, sobretudo no caso de Lisboa e Porto. É também um momento chave de avaliação da acção do Governo (lembram-se do Guterres?). E ainda temos aqueles casos de candidatos que concorrem a título individual (em tempos, aconteceu em Oeiras, Felgueiras e Gondomar… este ano, parece que é a vez de Matosinhos).
Para apimentar a festa, em 2013, o Movimento Revolução Branca tentou impedir que alguns ex-Presidentes de (da?!) Câmara pudessem concorrer às autarquias vizinhas (V. N. de Gaia – Porto, Ílhavo – Aveiro, Gouveia – Guarda, Caldas da Rainha – Loures, Sintra – Lisboa, Santiago do Cacém – Alcácer do Sal, Montemor-o-Novo – Évora, Mértola – Beja, Serpa – Beja, Alcoutim – Castro Marim e Castro Marim – Tavira). De acordo com as sondagens, alguns desses candidatos vão conhecer o sabor da derrota, justamente porque não estão em sintonia com a vontade popular.
No caso do Porto, e para os Enfermeiros, há um dado que merece grande atenção: o candidato do Partido Socialista àquela Câmara Municipal é apoiado pelo Bastonário da Ordem dos Enfermeiros.
Cada um apoia quem bem entende. Mas, será que o Enf. Germano Couto é uma figura a quem a sociedade, de uma maneira geral, e os enfermeiros, em particular, reconhecem uma colossal dedicação à coisa Pública, ao ponto de abraçar/apoiar, em simultâneo com a Presidência da OE, um projecto autárquico?
Creio que os problemas que a profissão atravessa (alguns agravaram-se desde a tomada de posse desta equipa directiva), respondem facilmente a esta questão.
Estará o Enf. Germano a apoiar uma candidatura em que se revê, ou estará a preparar terreno para um futuro (cor de rosa) que aí vem?
E não foi o Dr. Manuel Pizarro, que enquanto Secretário de Estado da Saúde de Sócrates, não reconheceu o devido valor aos Enfermeiros?
Aquando das últimas eleições para a Ordem dos Enfermeiros, fui dos que criticou o facto de a esposa do Bastonário integrar a lista aos órgãos sociais. Não que isso seja crime. Eu é que talvez seja um pouco conservador nessa matéria.
Ora, de acordo com o site da candidatura do PS à Câmara do Porto, a Enf.ª Carla Ferraz surge em 8º lugar na lista de vereadores. Eu sei que Portugal é um país pequeno… mas caramba, não é tão pequeno assim!
Este episódio, como facilmente se percebe, desagrada (e de que maneira) a muitos apoiantes do projecto Enfermagem Primeiro. Para mim, que não apoiei o Enf. Germano, não há grande desilusão, desse ponto de vista. O que me entristece profundamente é o excesso de escolas de Enfermagem, a emigração e o desemprego de milhares de jovens nossos colegas, a exploração de mão-de-obra qualificada, a falta de transparência no recrutamento de quem procura um emprego, o clima de medo que está instalado em algumas instituições de saúde (com total cobertura de Enf. chefes, supervisores, directores e, mais recentemente, adjuntos…), a falta de coragem para dialogar com outras profissões de saúde, a falta de ousadia de acção junto do Governo no sentido de garantir o respeito pela dignidade profissional, o não reconhecimento do valor dos enfermeiros especialistas, a falta de um rumo para a profissão… enfim, a destruição do SERVIÇO Nacional de Saúde!
P.S.: Aceitam um desafio? A duas semanas das eleições, vamos perguntar aos Enfermeiros, via Facebook, se concordam ou não com o apoio a esta candidatura. Talvez ainda consigamos fazer recuar o Enf. Germano 😉



(texto escrito em 8-9-2013)
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