O bailarico

Numa típica aldeia, celebra-se sempre uma festa em honra de um santo popular. Essa festa divide-se, geralmente, na festa religiosa e na componente pagã, mais exuberante. A maioria tem direito a baile e tudo. Sabemos como é: quando a banda começa a tocar, forma-se um círculo de pessoas em redor do palco: no meio, fica o espaço para os casais dançarem.
Mais ou menos envergonhados, os primeiros casais avançam e dão início ao baile. Outros se seguem e a festa continua pela noite dentro. Quem está a dançar é o centro da acção. E é mais que garantido: vai levar uns encontrões, umas pisadelas, quiçá uma cotovelada. Afinal, todos querem dançar no centro, não é? Mas quem dança não quer saber disso: está no controlo, está a dar show para outros verem, é o dançarino que faz a festa! E quem sabe, no final da noite, lhe restem 3 opções: fica o sorriso do par, fica o número de telemóvel ou leva a miúda pelo braço. Seja como for, dançou! Mexeu-se. Fez por isso!
Mas desengane-se quem ignora os restantes foliões. E se há quem fique toda a noite perto do bar, a beber uma “fresquinha”, há também as pessoas que delimitam o círculo do bailarico: são elas que vemos quando entramos e saímos da dança. Geralmente estão de pé e de braços cruzados. Cabeça esticada, tudo vêm e decerto criticam. Querem entrar no baile, mas não sabem como. Ficam ali, na fila da frente, têm vontade, mas falta-lhes dar o primeiro passo. Parece que vai ser desta, mas não, não é. Só que a noite avança e para quem não dança, as horas de pé começam a tornar-se num verdadeiro fardo. E de tanto aqueles braços cruzados olham aquelas pernas a dançar, que se cansam, desistem e voltam para casa, para regressar na noite de baile seguinte.
Na vida política e, particularmente, no sector da saúde, o princípio é o mesmo: se há quem, como mais ou menos à-vontade, decide dar início ao baile, haverá sempre aqueles que ocupam a periferia da acção, espreitando e esperando pela sua vez. Só que mantêm os braços cruzados e isso não apela a ninguém. Muito menos à miúda de cabelo castanho-aloirado liso e com aquele sorriso fantástico. E enquanto os enfermeiros não decidirem descruzar os braços e convidar a menina para dançar, uma e outra e outra vez, nunca dançarão ao som da música. Não haverá sorriso, telemóvel a tocar e o acordar com a melhor sensação do mundo:
“Tinha medo, mas dançei! Hoje, estou no topo do mundo!”

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